Serpentes

1.CONHECENDO AS SERPENTES

        Os acidentes ofídicos são causados por picadas ou mordeduras de serpentes, sejam elas peçonhentas ou não (Brasil, 2025). Esses animais são vertebrados pertencentes ao grupo dos répteis e apresentam características próprias, como a ectotermia, dependendo da temperatura ambiental para regular sua temperatura corporal (Dos Santos et al., 2026). Possuem corpo alongado revestido por escamas, olhos sem pálpebras móveis e língua bifurcada, utilizada na captação de odores e na percepção de informações do ambiente. Seu tamanho é variável, podendo apresentar desde poucos centímetros até vários metros de comprimento (Guimarães, 2024).

        A identificação das serpentes peçonhentas baseia-se principalmente em três características (Figura 1), sendo elas:

        • Presença de fosseta loreal: localizada entre os olhos e as narinas, é um importante órgão termorreceptor (detecta o calor de outros animais, auxiliando na localização de presas e predadores) presente nas principais serpentes peçonhentas, com exceção do gênero Micrurus (Vasconcelos; Maia, 2023).
        • Presença de aparelho inoculador: quanto à dentição, as serpentes são classificadas em áglifas (não possuem presas inoculadoras nem dentes com sulcos ou canais), opistóglifas (apresentam dentes posteriores com sulcos, o que reduz o risco de inoculação da peçonha), proteróglifas (possuem presas anteriores fixas e com canal) e solenóglifas (apresentam presas anteriores longas, móveis e com canal central, formando um aparelho inoculador altamente especializado). Ademais, as glândulas produtoras de peçonha localizam-se, geralmente, bilateralmente na região da cabeça, próximas ao maxilar (Venancio et al., 2022).
        • Padrão da cauda: pode ser lisa, com escamas eriçadas ou apresentar um chocalho na extremidade (Vasconcelos; Maia, 2023).

        Figura 1 – Diferenciação entre serpentes peçonhentas de importância em saúde e peçonhentas sem importância em saúde.

        Fonte: Brasil (2024, p. 25). Desenhos: Marcus A. Buononato.

        2. SERPENTES DE IMPORTÂNCIA MÉDICA

        O Brasil apresenta uma das maiores diversidades de serpentes do mundo, com cerca de 435 espécies distribuídas em 10 famílias. Dentre elas, quatro gêneros possuem maior relevância para a saúde pública, sendo elas: Bothrops, Crotalus, Lachesis (família Viperidae) e Micrurus (família Elapidae) (De Araújo, 2025).

        2.1 Gênero Bothrops

        Possui como principais espécies a jararacuçu, jararaca, urutu, caiçaca e comboia, sendo o gênero responsável pela maioria dos acidentes ofídicos no Brasil. Apresentam dentição solenóglifa, fosseta loreal e escamas quilhadas, além de coloração predominantemente marrom, cinza ou avermelhada, com manchas escuras características ao longo do corpo, com desenhos corporais em “V” invertido, bem como apresenta a extremidade da cauda com escamas lisas (Figura 2). Podem ser encontradas em diferentes ambientes, como áreas rurais e agrícolas, regiões periurbanas, cerrados, áreas abertas, margens de rios e igarapés e regiões litorâneas e úmidas. Seu comprimento pode ultrapassar 2 metros, embora a média seja de aproximadamente 1,6 metros (Brasil, 2026a; Girão, 2026).

        Figura 2 – .Característica morfológica geral das jararacas com desenhos corporais em “V” invertido e cauda lisa.

        Fonte: Brasil (2024, p. 31). Foto: Marcus A. Buononato e Giuseppe Puorto.

        2.2 Gênero Crotalus

        Possui como principal espécie a cascavel, sendo o segundo gênero responsável pela maioria dos casos de acidentes ofídicos no Brasil. Apresenta dentição solenóglifa, fosseta loreal e uma característica marcante: o chocalho ou guizo na extremidade da cauda. Possui corpo robusto, com coloração predominantemente castanho-clara ou cinza-clara e manchas dorsais losangulares mais escuras, geralmente margeadas de branco ou amarelado (Figura 3). Pode ser encontrada principalmente em cerrados, campos, regiões áridas e semiáridas e outras áreas abertas. Seu comprimento pode atingir aproximadamente 1,5 metros (Girão, 2026; Guimarães, 2024).

        Figura 3 – Características morfológicas das cascavéis com linhas vertebrais, manchas dorsais losangulares e cauda com chocalho.

        Fonte: Brasil (2024, p. 3). Foto: Marcus A. Buononato.

        2.3 Gênero Lachesis

        Possui como principal espécie a surucucu ou surucucu-pico-de-jaca. Apresenta dentição solenóglifa, fosseta loreal e escamas dorsais elevadas, que conferem aspecto semelhante à casca de uma jaca. Sua cauda possui escamas subcaudais eriçadas e um espinho na extremidade, característica marcante da espécie (Figura 4). Pode ser encontrada principalmente nos biomas Amazônia e Mata Atlântica, em ambientes florestais e úmidos. Seu comprimento pode atingir aproximadamente 3,5 metros (Brasil, 2024).

        Figura 4 – Características morfológicas das surucucus com escamas semelhantes à casca da jaca e cauda com escamas eriçadas.

        Fonte: Brasil (2024, p. 33). Foto: Marcus A. Buononato.

        2.4 Gênero Micrurus

        Possui como principais espécies as cobras corais-verdadeiras. Apresentam dentição proteróglifa, ausência de fosseta loreal, cabeça pequena e arredondada e corpo esguio e cilíndrico, com cauda moderadamente curta e lisa. Apresentam coloração característica, geralmente formada por anéis vermelhos, pretos, amarelos e brancos ao longo do corpo, embora existam espécies sem anéis (Figura 5). Podem ser encontradas em diferentes ambientes de todo o território brasileiro, apresentando principalmente hábitos noturnos e fossoriais. Seu comprimento pode atingir aproximadamente 1,7 metros, embora a média seja de cerca de 1,4 metros (Girão, 2026).

        Figura 5 – Detalhes das características morfológicas externas das cobras-corais.

        Fonte: Brasil (2024, p. 39). Fotos: Marcus A. Buononato.

        3. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS

        Os acidentes por Bothrops caracterizam-se por dor, inchaço, manchas arroxeadas e sangramentos, podendo evoluir para necrose, infecção e insuficiência renal. Nos acidentes por Crotalus, geralmente há pouco comprometimento local, com formigamento, visão turva ou dupla, pálpebras caídas, mal-estar, náuseas, cefaleia e dores musculares, podendo ocorrer insuficiência renal nos casos graves (Brasil, 2025). Os acidentes por Lachesis apresentam quadro semelhante ao botrópico, podendo também causar dor abdominal, vômitos, diarreia, bradicardia, hipotensão e necrose. Já os acidentes por Micrurus geralmente não provocam alterações locais importantes, mas podem causar dor, visão turva ou dupla, pálpebras caídas e sonolência, evoluindo, nos casos graves, para paralisia respiratória e morte (Guimarães, 2024).

        4. TRATAMENTO

        O tratamento dos acidentes ofídicos consiste na administração precoce do soro antiveneno específico, de acordo com o gênero da serpente e a gravidade do envenenamento. Além da soroterapia, recomenda-se tratamento de suporte, incluindo lavagem do local da picada, hidratação, controle da dor e monitoramento das funções renal e da coagulação. Antibióticos são indicados apenas em casos de infecção secundária, e a profilaxia antitetânica deve ser realizada conforme a situação vacinal (Brasil, 2026b).

        5. COMO SE PREVENIR DE ACIDENTES OFÍDICOS?

        A prevenção dos acidentes ofídicos envolve cuidados principalmente com a proteção dos pés e das mãos e com a organização do ambiente. Dessa forma, as principais medidas preventivas estão relacionadas à (Brasil, 2026a):

        • Utilização de botas de cano alto, perneiras, botinas ou calçados fechados em áreas com maior possibilidade de presença de serpentes;
        • Utilização de luvas de couro ao manusear folhas, lenha, palhas e outros materiais, evitando colocar as mãos em buracos ou locais de difícil visualização, onde as serpentes podem estar abrigadas;
        • Manutenção de paióis, terreiros e áreas próximas às residências, além do controle de roedores e da vedação de frestas e buracos que possam facilitar a entrada desses animais;
        • Remoção de lixo, entulho, pedras, tijolos, telhas e madeiras acumulados, bem como manutenção da vegetação baixa, reduzindo os locais de abrigo e a disponibilidade de presas para as serpentes.

        REFERÊNCIAS

        BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Guia de Animais Peçonhentos do Brasil. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.

        BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria SECTICS/MS nº 83, de 7 de outubro de 2025. Acidentes Ofídicos: PCDT resumido. 2025. Disponível: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/2026/pcdt-resumido/pcdt-resumido-acidentes-ofidicos/@@display-file/file. Acesso em: 11 set 2026.

        BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas dos acidentes ofídicos. Brasília: Ministério da Saúde, 2026b

        DE ARAÚJO, A. O. Perfil epidemiológico dos acidentes ofídicos notificados de 2011 a 2023, no Estado da Paraíba, Nordeste do Brasil. 2025. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Ciências Biológicas) – Faculdade de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Campina Grande, Campina Grande.

        DOS SANTOS, A. J. et al. Estudo Ecológico da Dinâmica Epidemiológica do Ofidismo no Estado de Alagoas: Análise Espaço-Temporal de 2007 a 2021. Diversitas Journal, v. 11, p. 154, 2026.

        GIRÃO, M. V. D. Serpentes de interesse em saúde no brasil: nomenclatura, anatomia, composição e manifestações clínicas de seus venenos. In: GIRÃO, M. V. D (org.). Ciência animal: biodiversidade, comportamento, conservação e ecologia em pesquisa. São Paulo: Editora Científica Digital, 2026, cap. 2, p. 18-34.

        GUIMARÃES, L. R. Serpentes peçonhentas do Cerrado Brasileiro: características, métodos de prevenção e tratamento de acidentes ofídicos. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Ciências Biológicas) – Faculdade de Ciências Biológicas, Instituto Federal Goiano, Urutaí.

        VENANCIO, N. de A. R. et al. Acidentes ofídicos. Revista de Ciência Elementar, v. 10, n. 2, 2022.

        VASCONCELOS, A. L. C.; MAIA, F. L. de A. Acidentes por animais peçonhentos. In: DOS SANTOS et al. (org.). Manual de emergências pediátricas. Maceió: Hawking, 2023, cap. 33, p. 398-409.

        Última atualização: terça-feira, 20 de outubro de 2026