1.CONHECENDO AS SERPENTES
Os acidentes ofídicos são causados por picadas ou mordeduras de serpentes, sejam elas peçonhentas ou não (Brasil, 2025). Esses animais são vertebrados pertencentes ao grupo dos répteis e apresentam características próprias, como a ectotermia, dependendo da temperatura ambiental para regular sua temperatura corporal (Dos Santos et al., 2026). Possuem corpo alongado revestido por escamas, olhos sem pálpebras móveis e língua bifurcada, utilizada na captação de odores e na percepção de informações do ambiente. Seu tamanho é variável, podendo apresentar desde poucos centímetros até vários metros de comprimento (Guimarães, 2024).
A identificação das serpentes peçonhentas baseia-se principalmente em três características (Figura 1), sendo elas:
Figura 1 – Diferenciação entre serpentes peçonhentas de importância em saúde e peçonhentas sem importância em saúde.

Fonte: Brasil (2024, p. 25). Desenhos: Marcus A. Buononato.
2. SERPENTES DE IMPORTÂNCIA MÉDICA
O Brasil apresenta uma das maiores diversidades de serpentes do mundo, com cerca de 435 espécies distribuídas em 10 famílias. Dentre elas, quatro gêneros possuem maior relevância para a saúde pública, sendo elas: Bothrops, Crotalus, Lachesis (família Viperidae) e Micrurus (família Elapidae) (De Araújo, 2025).
2.1 Gênero Bothrops
Possui como principais espécies a jararacuçu, jararaca, urutu, caiçaca e comboia, sendo o gênero responsável pela maioria dos acidentes ofídicos no Brasil. Apresentam dentição solenóglifa, fosseta loreal e escamas quilhadas, além de coloração predominantemente marrom, cinza ou avermelhada, com manchas escuras características ao longo do corpo, com desenhos corporais em “V” invertido, bem como apresenta a extremidade da cauda com escamas lisas (Figura 2). Podem ser encontradas em diferentes ambientes, como áreas rurais e agrícolas, regiões periurbanas, cerrados, áreas abertas, margens de rios e igarapés e regiões litorâneas e úmidas. Seu comprimento pode ultrapassar 2 metros, embora a média seja de aproximadamente 1,6 metros (Brasil, 2026a; Girão, 2026).
Figura 2 – .Característica morfológica geral das jararacas com desenhos corporais em “V” invertido e cauda lisa.

Fonte: Brasil (2024, p. 31). Foto: Marcus A. Buononato e Giuseppe Puorto.
2.2 Gênero Crotalus
Possui como principal espécie a cascavel, sendo o segundo gênero responsável pela maioria dos casos de acidentes ofídicos no Brasil. Apresenta dentição solenóglifa, fosseta loreal e uma característica marcante: o chocalho ou guizo na extremidade da cauda. Possui corpo robusto, com coloração predominantemente castanho-clara ou cinza-clara e manchas dorsais losangulares mais escuras, geralmente margeadas de branco ou amarelado (Figura 3). Pode ser encontrada principalmente em cerrados, campos, regiões áridas e semiáridas e outras áreas abertas. Seu comprimento pode atingir aproximadamente 1,5 metros (Girão, 2026; Guimarães, 2024).
Figura 3 – Características morfológicas das cascavéis com linhas vertebrais, manchas dorsais losangulares e cauda com chocalho.

Fonte: Brasil (2024, p. 3). Foto: Marcus A. Buononato.
2.3 Gênero Lachesis
Possui como principal espécie a surucucu ou surucucu-pico-de-jaca. Apresenta dentição solenóglifa, fosseta loreal e escamas dorsais elevadas, que conferem aspecto semelhante à casca de uma jaca. Sua cauda possui escamas subcaudais eriçadas e um espinho na extremidade, característica marcante da espécie (Figura 4). Pode ser encontrada principalmente nos biomas Amazônia e Mata Atlântica, em ambientes florestais e úmidos. Seu comprimento pode atingir aproximadamente 3,5 metros (Brasil, 2024).
Figura 4 – Características morfológicas das surucucus com escamas semelhantes à casca da jaca e cauda com escamas eriçadas.

Fonte: Brasil (2024, p. 33). Foto: Marcus A. Buononato.
2.4 Gênero Micrurus
Possui como principais espécies as cobras corais-verdadeiras. Apresentam dentição proteróglifa, ausência de fosseta loreal, cabeça pequena e arredondada e corpo esguio e cilíndrico, com cauda moderadamente curta e lisa. Apresentam coloração característica, geralmente formada por anéis vermelhos, pretos, amarelos e brancos ao longo do corpo, embora existam espécies sem anéis (Figura 5). Podem ser encontradas em diferentes ambientes de todo o território brasileiro, apresentando principalmente hábitos noturnos e fossoriais. Seu comprimento pode atingir aproximadamente 1,7 metros, embora a média seja de cerca de 1,4 metros (Girão, 2026).
Figura 5 – Detalhes das características morfológicas externas das cobras-corais.

Fonte: Brasil (2024, p. 39). Fotos: Marcus A. Buononato.
3. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS
Os acidentes por Bothrops caracterizam-se por dor, inchaço, manchas arroxeadas e sangramentos, podendo evoluir para necrose, infecção e insuficiência renal. Nos acidentes por Crotalus, geralmente há pouco comprometimento local, com formigamento, visão turva ou dupla, pálpebras caídas, mal-estar, náuseas, cefaleia e dores musculares, podendo ocorrer insuficiência renal nos casos graves (Brasil, 2025). Os acidentes por Lachesis apresentam quadro semelhante ao botrópico, podendo também causar dor abdominal, vômitos, diarreia, bradicardia, hipotensão e necrose. Já os acidentes por Micrurus geralmente não provocam alterações locais importantes, mas podem causar dor, visão turva ou dupla, pálpebras caídas e sonolência, evoluindo, nos casos graves, para paralisia respiratória e morte (Guimarães, 2024).
4. TRATAMENTO
O tratamento dos acidentes ofídicos consiste na administração precoce do soro antiveneno específico, de acordo com o gênero da serpente e a gravidade do envenenamento. Além da soroterapia, recomenda-se tratamento de suporte, incluindo lavagem do local da picada, hidratação, controle da dor e monitoramento das funções renal e da coagulação. Antibióticos são indicados apenas em casos de infecção secundária, e a profilaxia antitetânica deve ser realizada conforme a situação vacinal (Brasil, 2026b).
5. COMO SE PREVENIR DE ACIDENTES OFÍDICOS?
A prevenção dos acidentes ofídicos envolve cuidados principalmente com a proteção dos pés e das mãos e com a organização do ambiente. Dessa forma, as principais medidas preventivas estão relacionadas à (Brasil, 2026a):
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Guia de Animais Peçonhentos do Brasil. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria SECTICS/MS nº 83, de 7 de outubro de 2025. Acidentes Ofídicos: PCDT resumido. 2025. Disponível: https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/protocolos/2026/pcdt-resumido/pcdt-resumido-acidentes-ofidicos/@@display-file/file. Acesso em: 11 set 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas dos acidentes ofídicos. Brasília: Ministério da Saúde, 2026b
DE ARAÚJO, A. O. Perfil epidemiológico dos acidentes ofídicos notificados de 2011 a 2023, no Estado da Paraíba, Nordeste do Brasil. 2025. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Ciências Biológicas) – Faculdade de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Campina Grande, Campina Grande.
DOS SANTOS, A. J. et al. Estudo Ecológico da Dinâmica Epidemiológica do Ofidismo no Estado de Alagoas: Análise Espaço-Temporal de 2007 a 2021. Diversitas Journal, v. 11, p. 154, 2026.
GIRÃO, M. V. D. Serpentes de interesse em saúde no brasil: nomenclatura, anatomia, composição e manifestações clínicas de seus venenos. In: GIRÃO, M. V. D (org.). Ciência animal: biodiversidade, comportamento, conservação e ecologia em pesquisa. São Paulo: Editora Científica Digital, 2026, cap. 2, p. 18-34.
GUIMARÃES, L. R. Serpentes peçonhentas do Cerrado Brasileiro: características, métodos de prevenção e tratamento de acidentes ofídicos. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Ciências Biológicas) – Faculdade de Ciências Biológicas, Instituto Federal Goiano, Urutaí.
VENANCIO, N. de A. R. et al. Acidentes ofídicos. Revista de Ciência Elementar, v. 10, n. 2, 2022.
VASCONCELOS, A. L. C.; MAIA, F. L. de A. Acidentes por animais peçonhentos. In: DOS SANTOS et al. (org.). Manual de emergências pediátricas. Maceió: Hawking, 2023, cap. 33, p. 398-409.
Última atualização: terça-feira, 20 de outubro de 2026