Escorpiões

1. CONHECENDO OS ESCORPIÕES

Os escorpiões são aracnídeos pertencentes à ordem Scorpiones. Apresentam o corpo segmentado, quatro pares de pernas e um aparelho inoculador de veneno localizado na extremidade do abdômen, denominado télson (LOURENÇO, 2002). São animais predominantemente carnívoros e alimentam-se principalmente de insetos, como grilos e baratas, além de aranhas e, ocasionalmente, pequenos vertebrados (BRASIL, 2009; LOURENÇO, 2002).  Possuem hábitos predominantemente noturnos e podem utilizar como abrigo frestas, entulhos, materiais empilhados e outros locais protegidos próximos às residências (BRASIL, 2009).

No Nordeste brasileiro, há diversas espécies de escorpiões, mas algumas são particularmente importantes do ponto de vista médico por estarem envolvidas em acidentes humanos.

2. PRINCIPAIS ESPÉCIES DE IMPORTÂNCIA MÉDICA NO NORDESTE

No Nordeste brasileiro, há diversas espécies de escorpiões, mas algumas são particularmente importantes do ponto de vista médico por estarem envolvidas em acidentes humanos.

2.1 Tityus stigmurus (Escorpião-amarelo-do-nordeste)

É uma das principais espécies de importância médica do Nordeste brasileiro e apresenta distribuição predominantemente nordestina, com registros em estados como Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí (BRASIL, 2001; BRASIL, 2009). Apresenta de 5 a 7 cm de comprimento, coloração geral amarela, inclusive no tronco, com um triângulo escuro na face dorsal do cefalotórax, uma faixa escura central bem definida e duas faixas laterais discretas no dorso do tronco (Figura 1). As pernas e os palpos não apresentam manchas; há discreta serrilha dorsal no terceiro e quarto segmentos da cauda e um espinho sob o ferrão (BRASIL, 2024).

 Possui elevada capacidade de adaptação a ambientes antropizados, sendo frequentemente encontrado em áreas urbanas e periurbanas, onde dispõe de abrigo e alimento. A espécie apresenta reprodução por partenogênese, característica que favorece sua manutenção e dispersão. É responsável por parcela importante dos acidentes escorpiônicos na região Nordeste e constitui uma das espécies de maior relevância para a saúde pública regional (BRASIL, 2001; BRASIL, 2009).

Figura 1 – Tityus stigmurus

Fonte: BRASIL (2024).

2.2 Tityus serrulatus (Escorpião-amarelo)

É uma das espécies de maior importância médica do país, com grande capacidade de adaptação ao ambiente urbano. Seus acidentes podem apresentar manifestações sistêmicas importantes, especialmente em crianças (BRASIL, 2009; BRASIL, 2026). Apresenta de 5 a 7 cm de comprimento, coloração geral amarela, com o tronco escuro; as pernas e os palpos não apresentam manchas (Figura 2). Caracteriza-se ainda pela presença de serrilha dorsal no terceiro e quarto segmentos da cauda e de um espinho sob o ferrão (BRASIL, 2024).

Conhecido como escorpião-amarelo, é típico das regiões Sudeste e Centro-Oeste e com ocorrência também registrada em alguns estados do Nordeste, onde sua presença é considerada não endêmica e pode ocorrer de forma localizada, possui grande capacidade de adaptação ao ambiente urbano. Quando presente na região, seu veneno pode causar manifestações clínicas importantes, principalmente em crianças. É responsável pelo maior número de acidentes escorpiônicos no país  (BRASIL, 2001; BRASIL, 2009).

Figura 2 – Tityus serrulatus

Fonte: BRASIL (2024).

2.3 Tityus bahiensis (Escorpião-marrom)

É uma espécie de importância médica no Brasil (BRASIL, 2024; BRASIL, 2026). Apresenta de 5 a 7 cm de comprimento, coloração geral marrom-avermelhada, com o tronco escuro e sem manchas; as pernas e os palpos apresentam manchas escuras, mais acentuadas nos palpos (Figura 3). Não possui serrilha na cauda e apresenta um espinho sob o ferrão (BRASIL, 2024).

Sua distribuição ocorre principalmente nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul (BRASIL, 2024).  No Nordeste, sua ocorrência é mais restrita e apresenta menor relevância epidemiológica quando comparada a espécies como Tityus stigmurus, que possui distribuição predominantemente nordestina e está entre as principais espécies associadas aos acidentes escorpiônicos na região.

Figura 3 – Tityus bahiensis

Fonte: BRASIL (2024).

3. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS

A gravidade do escorpionismo pode ser influenciada pela espécie, pela quantidade de veneno inoculada, pelo peso corporal, pela idade, pelas condições clínicas do paciente, pela localização da picada e pelo tempo decorrido até a assistência. Crianças com idade menor ou igual a 10 anos, especialmente as menores de 7 anos, apresentam maior vulnerabilidade ao desenvolvimento de manifestações sistêmicas graves (BRASIL, 2026).

A classificação recomendada pelo Ministério da Saúde compreende:

• Casos leves: dor, eritema, parestesia e sudorese; ocasionalmente, náusea, vômito, agitação e taquicardia discretas relacionadas à dor.

• Casos moderados: manifestações locais associadas a sudorese, náuseas, alguns episódios de vômitos, alterações da frequência cardíaca ou da pressão arterial e agitação.

• Casos graves: inúmeros episódios de vômitos, sudorese profusa, alterações da frequência cardíaca ou da pressão arterial, sialorreia, agitação alternada com sonolência, taquidispneia, priapismo, convulsões, insuficiência cardíaca e edema agudo de pulmão (BRASIL, 2026).

4. TRATAMENTO

Em casos de acidentes envolvendo escorpiões, a adoção de medidas adequadas imediatamente após a picada é fundamental para reduzir o risco de complicações e favorecer um atendimento adequado. Nesse contexto, é importante conhecer tanto as condutas recomendadas quanto aquelas que devem ser evitadas, especialmente no que se refere à manipulação do local da picada e ao uso de substâncias ou métodos caseiros. A Figura 4 apresenta, de forma ilustrativa, as principais orientações sobre o que fazer e o que não fazer em caso de acidente com escorpião.

Figura 4 – Acidente com Escorpião (O que fazer e o que não fazer)

Fonte: Adaptado de Brasil (2001) e Brasil (2026). Imagem criada por inteligência artificial.

Após a chegada ao serviço de saúde, a conduta deve ser orientada pelas manifestações clínicas (BRASIL, 2026). A dor deve ser avaliada por meio de escala apropriada e tratada conforme sua intensidade. Pode ser utilizada compressa morna para auxiliar no alívio da dor. A dor isolada não constitui indicação de soro antiveneno (BRASIL, 2026).

O soro antiescorpiônico é indicado nos casos moderados e graves, independentemente da idade. Na ausência do soro antiescorpiônico ou diante de dúvida diagnóstica entre acidente escorpiônico e aracnídico, pode ser utilizado o soro antiaracnídico, conforme avaliação médica. A administração deve ocorrer o mais precocemente possível e com monitoramento adequado (BRASIL, 2026).

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Nacional de Saúde. Manual de diagnóstico e tratamento de acidentes por animais peçonhentos. 2. ed. Brasília, DF: Fundação Nacional de Saúde, 2001. 120 p.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Manual de controle de escorpiões. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2009. 72 p.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas dos Acidentes Escorpiônicos. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026. 30 p.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Guia de Animais Peçonhentos do Brasil. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. 164 p.

LOURENÇO, Wilson R. Scorpions of Brazil. Paris: Les Éditions de l’If, 2002.

Última atualização: terça-feira, 20 de outubro de 2026