Aranhas

1 CONHECENDO AS ARANHAS

As aranhas são aracnídeos, animais frequentemente confundidos com insetos, mas que podem ser diferenciados por apresentarem o corpo dividido em duas partes — prossoma (ou cefalotórax) e opistossoma (ou abdome) —, quatro pares de pernas, um par de pedipalpos, um par de quelíceras terminadas em garras (presas), por onde o veneno é inoculado, e ausência de antenas (Brasil, 2024b).

Os aracnídeos englobam animais bem conhecidos, como aranhas, escorpiões, carrapatos e ácaros, e outros menos conhecidos, como opiliões, pseudoescorpiões, amblipígios e escorpiões-vinagre, entre outros. Estes últimos também ocorrem no Brasil, sendo muito comuns em algumas regiões, mas não oferecem risco de envenenamento ao ser humano. As aranhas são os únicos aracnídeos que inoculam veneno por meio das garras de suas quelíceras e os únicos que possuem fiandeiras no abdome, estruturas que liberam fios de seda. Toda aranha produz seda, que muitas espécies utilizam na construção de armadilhas (teias) para a captura de presas e na confecção do saco de ovos (ooteca), entre outras finalidades (Brasil, 2024b).

As aranhas alimentam-se principalmente de insetos e de outras aranhas; algumas espécies maiores podem se alimentar de pequenos vertebrados, como sapos, lagartos e roedores. Abrigam-se em buracos no solo, debaixo de pedras, em troncos caídos, cascas de árvores e na vegetação. Muitas espécies constroem teias para capturar suas presas, normalmente insetos, enquanto outras caçam ativamente, sem teia de captura. Em áreas alteradas pelo homem, como nas proximidades de residências, costumam abrigar-se debaixo de tijolos, telhas ou madeiras empilhadas, podendo entrar nas casas e provocar acidentes (Brasil, 2024b).

2 PRINCIPAIS ARANHAS DE IMPORTÂNCIA MÉDICA

As aranhas são animais importantes para o equilíbrio dos ecossistemas, e a grande maioria das espécies não causa acidentes graves ao ser humano. No Brasil, as aranhas de importância médica pertencem principalmente a três gêneros — Loxosceles (aranha-marrom), Phoneutria (armadeira) e Latrodectus (viúva-negra) —, cujos venenos provocam quadros clínicos distintos. Por isso, conhecer esses animais e os efeitos de seus venenos é importante para a prevenção e o atendimento adequado dos acidentes (Brasil, 2024b).

2.1 Gênero Phoneutria (armadeira)

As aranhas do gênero Phoneutria, conhecidas popularmente como armadeiras, são aranhas de médio a grande porte, de hábitos predominantemente noturnos, que caçam ativamente e não constroem teias de captura. Durante o dia, costumam permanecer escondidas em locais escuros, como sob pedras, troncos, folhas e entulhos e, ocasionalmente, dentro de calçados ou roupas (Brasil, 2024b).

Quando se sentem ameaçadas, adotam uma postura de defesa bastante característica: apoiam-se nas pernas traseiras, elevam a parte anterior do corpo e erguem os pares de pernas dianteiros, exibindo as quelíceras (Figura 1). Essa postura de “armar-se” para o bote deu origem ao seu nome popular (Brasil, 2024b).

Figura 1 – Gênero Phoneutria (armadeira) em postura de defesa

Fonte: Brasil (2024b, p. 82). Foto: Rogério Bertani.

2.2 Gênero Loxosceles (aranha-marrom)

As aranhas do gênero Loxosceles (família Sicariidae), conhecidas popularmente como aranhas-marrons, são pequenas, de coloração marrom e pernas longas e finas. Possuem seis olhos, dispostos em três pares em semicírculo, característica que ajuda a diferenciá-las da maioria das aranhas domésticas, que possuem oito olhos. Algumas espécies apresentam uma mancha escura em forma de violino no cefalotórax — daí os nomes aranha-violino ou aranha-violinista —, mas esse desenho nem sempre é nítido e não deve ser usado isoladamente para a identificação (Figura 2). No Brasil, as principais espécies de importância médica são L. intermedia, L. laeta e L. gaucho (Brasil, 2001, 2024a; National Geographic Brasil, 2025).

Figura 2 – Gênero Loxosceles (aranha-marrom)

Fonte: Brasil (2024b, p. 86). Foto: Rogério Bertani.

São aranhas de hábitos noturnos e sedentários, encontradas principalmente em locais escuros, secos e pouco movimentados, como atrás de móveis, quadros e espelhos, em fendas de paredes, entre caixas e papéis acumulados e dentro de roupas e sapatos guardados. Sua teia é irregular e lembra algodão esfiapado (National Geographic Brasil, 2025).

O veneno loxoscélico tem ação principalmente dermonecrótica e hemolítica, atribuída sobretudo à enzima esfingomielinase D. A picada geralmente passa despercebida, e o quadro se instala de forma lenta e progressiva: nas horas seguintes, surgem dor em queimação, edema e uma lesão característica, a placa marmórea (área pálida entremeada por manchas arroxeadas e circundada por vermelhidão), que pode evoluir para necrose e úlcera. Nos casos mais graves, o envenenamento pode provocar anemia, icterícia e injúria renal aguda (Brasil, 2001, 2024a; National Geographic Brasil, 2025).

A aranha-marrom não é agressiva e costuma picar apenas quando é comprimida contra o corpo, principalmente durante o sono ou ao vestir roupas e calçados onde estava escondida. Para prevenir acidentes, recomenda-se manter a casa limpa e organizada, evitar o acúmulo de objetos, limpar atrás e embaixo dos móveis, vedar frestas e sacudir roupas e calçados antes de utilizá-los. Em caso de suspeita de picada, deve-se procurar atendimento médico (National Geographic Brasil, 2025).

2.3 Gênero Latrodectus (viúva-negra)

As aranhas do gênero Latrodectus, conhecidas como viúvas-negras, são pequenas e constroem teias irregulares em vegetação rasteira, arbustos, frestas e entulhos (Figura 3). Somente as fêmeas, bem maiores que os machos, causam acidentes de importância médica. No Brasil, os acidentes latrodécticos têm sido registrados principalmente na região Nordeste. São conhecidas duas espécies no país: L. curacaviensis, de abdome preto com manchas vermelhas no dorso (Figura 3) e desenho vermelho em forma de ampulheta na face ventral, e L. geometricus, a viúva-marrom, de coloração marrom-acinzentada e ampulheta alaranjada (Brasil, 2001, 2024a; Pyrrho, 2024).

Figura 3 – Gênero Latrodectus (viúva-negra), vista dorsal

Fonte: Brasil (2024b, p. 90). Foto: Rogério Bertani.

As viúvas-negras vivem predominantemente em áreas silvestres e periurbanas e não são agressivas; os acidentes ocorrem, em geral, quando a aranha é comprimida contra o corpo (Pyrrho, 2024).

O veneno é neurotóxico: sua principal toxina, a alfa-latrotoxina, provoca liberação maciça de neurotransmissores nas terminações nervosas. O envenenamento, conhecido como latrodectismo, inicia-se geralmente com dor local de pequena intensidade, que evolui para sensação de queimação, podendo surgir pápula eritematosa no local da picada e, em seguida, manifestações sistêmicas (Pyrrho, 2024).

Entre as manifestações sistêmicas, as motoras são as mais comuns, com tremores, contrações musculares espasmódicas, rigidez abdominal (que pode ser confundida com abdome agudo) e contratura facial, podendo evoluir, raramente, para rabdomiólise e lesão miocárdica aguda (Pyrrho, 2024).

3 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS

Os acidentes por aranhas de importância médica apresentam manifestações clínicas diferentes de acordo com o gênero envolvido e são classificados, quanto à gravidade, em leves, moderados ou graves (Brasil, 2001, 2024a).

Acidente loxoscélico (Loxosceles). A picada geralmente é imperceptível, e as manifestações surgem de forma lenta e progressiva. Na forma cutânea, a mais frequente, ocorrem dor em queimação, edema, palidez e áreas arroxeadas (placa marmórea), bolhas e necrose, podendo haver febre, mal-estar, fraqueza, náuseas, vômitos e dores musculares. Na forma cutâneo-hemolítica, menos frequente e mais grave, ocorre destruição dos glóbulos vermelhos (hemólise), com anemia, icterícia e presença de hemoglobina na urina (urina escura), podendo evoluir para injúria renal aguda e coagulação intravascular disseminada (Brasil, 2001, 2024a).

Acidente fonêutrico (Phoneutria). A dor é imediata, geralmente intensa, e pode irradiar-se para todo o membro afetado. Também podem ocorrer inchaço, vermelhidão, formigamento e sudorese no local da picada, onde podem ser observadas duas marcas de inoculação. A maioria dos casos é leve; nos casos moderados e graves, mais frequentes em crianças, podem surgir sudorese generalizada, vômitos, taquicardia, hipertensão arterial, agitação e priapismo e, raramente, edema pulmonar agudo e choque (Brasil, 2001, 2024a).

Acidente latrodéctico (Latrodectus). Pode provocar dor no local da picada, sudorese generalizada, alterações da pressão arterial e dos batimentos cardíacos, contrações musculares, rigidez abdominal, tremores, ansiedade, insônia, dor de cabeça, coceira e vermelhidão no rosto e no pescoço. Nos casos mais graves, podem ocorrer alterações do comportamento e choque (Brasil, 2001, 2024a).

4 PRIMEIROS SOCORROS E TRATAMENTO

4.1 Primeiros socorros

Diante de uma picada de aranha, recomenda-se (Brasil, 2001, 2024a; Instituto Butantan, 2024):

  1. lavar o local da picada com água e sabão;
  2. aplicar compressas mornas para aliviar a dor, especialmente no acidente por armadeira;
  3. manter a vítima em repouso e procurar imediatamente um serviço de saúde;
  4. se for possível fazê-lo com segurança, levar a aranha (ou uma foto dela) para identificação;
  5. não fazer torniquete ou garrote, não cortar, furar ou sugar o local da picada e não aplicar substâncias como álcool, querosene, fumo, ervas ou pomadas.

Em caso de acidente ou de dúvida, deve-se consultar o Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) — em João Pessoa, pelos telefones (83) 3216-7045 e (83) 3216-7007 — ou o Disque-Intoxicação da Anvisa, pelo número 0800 722 6001 (ligação gratuita).

4.2 Tratamento

O tratamento depende do gênero da aranha e da gravidade do acidente e deve seguir os protocolos do Ministério da Saúde, com orientação do CIATox. A soroterapia é indicada apenas nos casos moderados e graves de loxoscelismo e foneutrismo. No loxoscelismo, utiliza-se preferencialmente o soro antiloxoscélico (SALox); no foneutrismo — e no loxoscelismo, quando o SALox não estiver disponível —, utiliza-se o soro antiaracnídico (SAAr), produzido a partir dos venenos de Loxosceles, Phoneutria e Tityus (escorpião). O SAAr não é indicado para acidentes por outros animais peçonhentos (Brasil, 2024a; Instituto Butantan, 2024). Em todos os casos, deve-se avaliar a profilaxia do tétano (Barish; Arnold, 2025).

No acidente loxoscélico, além do soro, recomenda-se, nos casos moderados e graves, o uso de corticoide (prednisona) por cinco dias. O cuidado local inclui limpeza e curativo da lesão; a remoção cirúrgica do tecido necrosado (desbridamento) deve ser adiada até que a área de necrose esteja completamente delimitada. Na forma cutâneo-hemolítica, são necessários suporte clínico, hidratação e acompanhamento da função renal (Brasil, 2001, 2024a; Instituto Butantan, 2024). Cabe ressaltar que parte da literatura internacional considera não comprovado o benefício de corticoides e da dapsona na redução da necrose (Barish; Arnold, 2025); no Brasil, a conduta segue o protocolo nacional.

No acidente fonêutrico, o tratamento é principalmente sintomático: controle da dor com infiltração de anestésico local sem vasoconstritor no local da picada ou bloqueio anestésico, compressas mornas e analgésicos. O soro antiaracnídico é reservado aos casos moderados e graves, mais comuns em crianças (Brasil, 2001, 2024a; Instituto Butantan, 2024).

No acidente latrodéctico, o tratamento é sintomático e de suporte, com analgésicos, benzodiazepínicos e outros medicamentos para o controle da dor e dos espasmos musculares; os casos moderados e graves exigem acompanhamento hospitalar (Brasil, 2024a; Barish; Arnold, 2025). O soro antiaracnídico disponível no Brasil não é indicado para esse acidente, pois não neutraliza o veneno de Latrodectus (Instituto Butantan, 2024).

É importante lembrar que o uso dos antídotos (soros antiveneno) devem ser administrados em ambiente hospitalar, por profissionais habilitados.

5 PREVENÇÃO DE ACIDENTES COM ARANHAS

A prevenção de acidentes com aranhas envolve medidas simples que reduzem o risco de contato com esses animais em ambientes domésticos e rurais (Brasil, 2026):

  1. Manter jardins e quintais limpos e evitar o acúmulo de entulho, folhas secas, lixo doméstico e material de construção perto das casas;
  2. Evitar folhagens densas (plantas ornamentais, trepadeiras, arbustos, bananeiras e outras) junto a paredes e muros e manter a grama aparada;
  3. Limpar periodicamente os terrenos baldios vizinhos, pelo menos numa faixa de um a dois metros junto às casas;
  4. Sacudir e inspecionar roupas, sapatos e tênis antes de usá-los, pois aranhas e escorpiões podem se esconder neles e picar ao serem comprimidos contra o corpo;
  5. Não colocar as mãos em buracos, sob pedras e em troncos podres;
  6. Usar calçados fechados e luvas de raspa de couro ao manusear entulho, lenha ou material de construção e ao trabalhar no jardim;
  7. Vedar soleiras de portas e janelas ao escurecer, pois muitos desses animais têm hábitos noturnos;
  8. Vedar frestas e buracos em paredes, assoalhos e vãos entre o forro e as paredes, consertar rodapés soltos e usar saquinhos de areia nas portas e telas nas janelas;
  9. Usar telas em ralos do chão, pias e tanques;
  10. Combater a proliferação de insetos, que servem de alimento para as aranhas;
  11. Afastar camas e berços das paredes e evitar que roupas de cama e mosquiteiros encostem no chão;
  12. Na zona rural, preservar os inimigos naturais de aranhas e escorpiões, como aves de hábitos noturnos (corujas, joão-bobo), lagartos, sapos, galinhas, gansos, macacos e quatis.

REFERÊNCIAS

BARISH, Robert A.; ARNOLD, Thomas. Picadas de aranha. In: MANUAL MSD: versão para profissionais de saúde. [S. l.]: MSD, jan. 2025. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/les%C3%B5es-intoxica%C3%A7%C3%A3o/mordidas-e-picadas/picadas-de-aranha. Acesso em: 23 set. 2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Nacional de Saúde. Manual de diagnóstico e tratamento de acidentes por animais peçonhentos. 2. ed. Brasília, DF: Fundação Nacional de Saúde, 2001.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Ações Estratégicas de Epidemiologia e Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde: volume 3. 6. ed. rev. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024a. ISBN 978-65-5993-503-1. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_vigilancia_saude_6edrev_v3.pdf. Acesso em: 22 out. 2026.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Guia de animais peçonhentos do Brasil. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024b. 164 p. ISBN 978-65-5993-598-7.

BRASIL. Ministério da Saúde. Acidentes por aranhas. Brasília, DF: Ministério da Saúde, [2026]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/animais-peconhentos/acidentes-por-aranhas. Acesso em: 15 set. 2026.

INSTITUTO BUTANTAN. Soro antiaracnídico (Loxosceles, Phoneutria e Tityus): bula para o profissional de saúde. São Paulo: Instituto Butantan, 2024. Disponível em: https://butantan.gov.br/assets/arquivos/soros-e-vacinas/2024/Bula%20Profissional%20da%20Sa%C3%BAde%20Soro%20Antiaracn%C3%ADdico.pdf. Acesso em: 4 nov. 2026.

NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL. Os 4 dados sobre a perigosa aranha-violinista ou aranha-marrom: seu habitat é a casa das pessoas. National Geographic Brasil, [S. l.], 14 jan. 2025. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/animais/2025/01/os-4-dados-sobre-a-perigosa-aranha-violinista-ou-aranha-marrom-seu-habitat-e-a-casa-das-pessoas. Acesso em: 23 set. 2026.

PYRRHO, Isabela Lacerda. Acidentes com aranhas peçonhentas no Brasil: epidemiologia, diagnóstico clínico e indicações de uso de soroterapia antiaracnídica. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Medicina) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2024. Disponível em: http://repositorio-bc.unirio.br:8080/xmlui/bitstream/handle/unirio/14228/TCC_UNIRIO_Medicina_2024_IsabelaLacerdaPyrrho.pdf. Acesso em: 23 set. 2026.

Elaborado por: Maryanna Araújo dos Santos

Corrigido e revisado por:

Antônia Fernandes Furtado de Abrantes – Farmacêutica – CIATox João Pessoa

Hemerson Iury Ferreira Magalhães – Docente – CIATox João Pessoa

Última atualização: quarta-feira, 4 de novembro de 2026